Compartilhe
Em março de 2026, Bonito foi eleita pela 19ª vez o melhor destino de ecoturismo do Brasil. No ano anterior, o Observatório do Turismo e Eventos do município contabilizou 293.712 visitantes, número expressivo para uma cidade de pouco mais de 22 mil habitantes.
Nos últimos três anos, outro movimento passou a acontecer em paralelo. Hotéis, atrativos turísticos, restaurantes e eventos da cidade começaram a aderir à jornada Lixo Zero, e a concentração de reconhecimentos emitidos em Bonito hoje chama atenção no mapa nacional da Certificação Lixo Zero.
A explicação para isso está na história da cidade e na forma como ela aprendeu a administrar seus recursos naturais.
A transparência das águas da região tem explicação técnica precisa. Bonito está no Planalto da Bodoquena, uma formação de rochas calcárias em área de transição entre Mata Atlântica e Cerrado. O carbonato de cálcio dissolvido na água reage com as partículas em suspensão e provoca sua decantação, deixando o sedimento no leito em vez de circular pela coluna d’água. O resultado é a visibilidade que se tornou o cartão de visita do destino.
Há uma ironia registrada nesse processo. O mesmo calcário que produz a transparência dos rios foi, durante décadas, extraído comercialmente na região como atividade econômica principal.
A cidade levou quase cem anos para perceber que o recurso mais valioso do território estava na superfície, e que ele dependia justamente da preservação da formação que se explorava.
O reconhecimento veio a partir do final dos anos 1980, quando a atividade turística começou a se profissionalizar. Foi um período de descoberta desorganizada. O fluxo crescia sem parâmetro, os atrativos recebiam grupos sem controle de quantidade e a pressão sobre nascentes, trilhas e margens de rio aumentava na mesma proporção.
O marco decisivo veio em 1995. Naquele ano, uma lei municipal tornou obrigatório o acompanhamento de guias credenciados nos atrativos, e o Conselho Municipal de Turismo instituiu o voucher único.
O sistema resolveu um problema que a maioria dos destinos naturais enfrenta tarde demais. Cada atrativo passou a ter um limite diário de visitantes, definido por critério técnico de capacidade de carga. Biólogos e técnicos estabelecem quantas pessoas cada rio, gruta ou trilha suporta por dia sem sofrer degradação. Quando as vagas de um horário se esgotam, ninguém mais consegue emitir voucher para aquele período.
O modelo foi posteriormente incorporado ao Código Tributário do município pela Lei Complementar Municipal nº 37, de 12 de dezembro de 2000, o que transformou o voucher em documento fiscal e consolidou o controle de acesso como norma permanente.
O que Bonito construiu ali foi mais do que um mecanismo de organização de fluxo. Foi uma cultura de gestão.
A cidade aprendeu, há trinta anos, que preservar um recurso natural exige número, limite e verificação. Não basta querer preservar. É preciso saber quantas pessoas o rio suporta por dia, registrar quantas entraram e impedir o acesso quando o limite é atingido. Essa lógica se tornou a base do funcionamento econômico do destino e moldou a forma como os empreendimentos locais enxergam a relação entre operação e ambiente.
Quando a Certificação Lixo Zero chegou a Bonito, encontrou empreendimentos que já operavam sob essa mentalidade.
A estrutura conceitual é a mesma. A certificação exige que a operação meça seus resíduos por fluxo de geração, comprove a destinação de cada material e sustente um índice de desvio de aterro verificado em auditoria. É o mesmo raciocínio do voucher aplicado a outro recurso: definir o parâmetro, medir o desempenho e comprovar o resultado com evidência documental.
Para um hotel ou atrativo de Bonito, essa exigência não representa uma quebra de rotina. Representa a extensão de uma prática que o negócio já dominava em outra frente.
Há ainda um segundo fator, de ordem econômica. Em um destino cuja receita depende integralmente da qualidade da água e da conservação do ambiente, a gestão de resíduos deixa de ser tema de responsabilidade social e passa a ser proteção de ativo. Um rio comprometido não representa apenas um problema ambiental para Bonito, mas acima de tudo, representa o fim do modelo de negócio da cidade.
Vale registrar que o contexto favorável não torna o processo simples. As operações turísticas da região enfrentam três dificuldades que não aparecem em empreendimentos urbanos.
A primeira é a distância. Boa parte dos atrativos fica em áreas rurais, a dezenas de quilômetros do centro urbano, o que encarece e complica a destinação dos materiais. Encaminhar recicláveis para cooperativas ou empresas de destinação exige planejamento de rota e acúmulo de volume, com estrutura de armazenamento adequada no local.
A segunda é a sazonalidade. O fluxo de visitantes em Bonito varia de forma acentuada entre alta e baixa temporada, e a geração de resíduos acompanha essa curva. Uma operação que funciona bem em maio pode colapsar em julho se o dimensionamento dos pontos de coleta e a frequência de retirada não considerarem o pico. Medir por fluxo e relacionar a geração com a ocupação é o que permite antecipar esse ajuste.
A terceira é o perfil de geração. Atrativos e hotéis com serviço de alimentação produzem volume alto de orgânico, material que se degrada rápido, atrai fauna e vetores e exige solução local. Em área rural e próxima a ambiente preservado, isso torna a compostagem menos uma escolha e mais uma necessidade operacional.
Os empreendimentos que avançaram na jornada em Bonito resolveram essas três equações dentro da própria realidade.

O movimento começou em 2023, com o Hotel Paraíso das Águas recebendo o Selo Rumo ao Lixo Zero. Em 2024, um conjunto de empreendimentos assumiu o Compromisso com Lixo Zero, entre eles a Pousada Arte da Natureza, o atrativo Estrela do Formoso, o Parque Ecológico Rio Formoso e o Zagaia Eco Resort.
A partir de 2025, esses mesmos empreendimentos começaram a avançar de estágio.
O Parque Ecológico Rio Formoso conquistou a Certificação Lixo Zero em fevereiro de 2025, com desempenho renovado em 2026 e 95% de desvio de aterro comprovado em auditoria. O Estrela do Formoso obteve a certificação em junho de 2025, com 93%. A Pousada Arte da Natureza chegou à certificação com 91%, e o Bacuri Cozinha Regional, com 90%.
A 11ª edição do Bonito 21K, prova de corrida realizada na cidade, alcançou 93% e demonstrou que a metodologia também se aplica a operações temporárias, com montagem, pico concentrado e desmontagem em janela curta.
O Zagaia Eco Resort avançou do Compromisso para o Certificado Rumo ao Lixo Zero, e o Polo SEBRAE de Ecoturismo obteve a Certificação Lixo Zero em agosto de 2026, sinalizando que o percurso segue em construção na cidade.
O conjunto cobre atrativo turístico, hotelaria, gastronomia, evento esportivo e articulação institucional. Cinco frentes distintas da economia local, com perfis de geração completamente diferentes entre si, submetidas ao mesmo referencial técnico.
Todos esses projetos tiveram coordenação e apoio de uma Consultoria local, a Ciclo Azul, grande responsável pelo sucesso e ampliação do alcance de iniciativas Lixo Zero.
O dado mais relevante desse conjunto não é a quantidade de reconhecimentos emitidos. É a permanência.
Conquistar uma certificação exige esforço concentrado. Sustentar o desempenho ao longo dos anos exige sistema implantado, e essa é uma distinção que separa gestão estruturada de mobilização pontual.
A Certificação Lixo Zero tem validade definida e passa por reavaliação periódica. Isso significa que a operação precisa manter o índice de desvio, continuar registrando os dados, preservar a adesão das equipes diante da rotatividade natural de pessoal e comprovar tudo novamente no ciclo seguinte. Mudança de fornecedor de coleta, reforma da estrutura, troca de gerência ou variação forte de público são situações que testam se o processo se consolidou ou se dependia de alguém específico.
Em Bonito, dois casos ilustram esse ponto.
O Parque Ecológico Rio Formoso percorreu a jornada completa e documentada: assumiu o Compromisso em 2024, conquistou a Certificação Lixo Zero em fevereiro de 2025 e renovou o reconhecimento em 2026, alcançando 96% de desvio. São três avaliações sucessivas em pouco mais de um ano e meio, com desempenho crescente.
Quatro organizações da cidade documentaram a evolução do Compromisso até a Certificação. Esse padrão indica que a adesão local não se deu por conquista isolada de selo, e sim por percurso estruturado, com etapas cumpridas em ordem.
A concentração de reconhecimentos em um município desse porte tem valor que ultrapassa o recorte local.
Bonito demonstra que a gestão de resíduos avança mais rápido onde já existe cultura de medição instalada. Os empreendimentos da cidade não precisaram ser convencidos de que controle e evidência importam, porque operam sob esse princípio desde que o voucher único foi criado. A conversa começou em um estágio adiantado.
Demonstra também que o movimento ganha consistência quando atravessa a cadeia inteira. Um hotel certificado sozinho entrega resultado próprio. Um destino com hotelaria, atrativos, gastronomia e eventos avançando na mesma direção constrói outra coisa: uma experiência em que o visitante encontra o mesmo padrão em todos os pontos do roteiro.
Para outros destinos de turismo de natureza, a leitura é direta. Investir em capacidade de carga, rastreabilidade de visitação e indicadores de impacto constrói uma base sobre a qual outras estruturas de gestão se apoiam depois. Bonito passou trinta anos consolidando essa base e hoje colhe o resultado em uma frente que nem estava no horizonte quando o modelo foi desenhado.
A cidade que aprendeu a contar visitantes para proteger seus rios está aprendendo a contar resíduos pelo mesmo motivo.
Toda jornada Lixo Zero começa pelo levantamento dos fluxos de resíduos da operação. É essa etapa que define o ponto de partida e o plano de ação. Fale com a nossa equipe e entenda como estruturar esse processo no seu empreendimento.
| Conheça a Certificação Lixo Zero Se sua organização realiza eventos e quer transformar dados de resíduos em um processo mais estruturado de gestão, comprovação e melhoria contínua, conheça a Certificação Lixo Zero. Entenda como diagnóstico, indicadores, Relatório Lixo Zero e auditoria podem ajudar a dar consistência às práticas adotadas e orientar as próximas edições. |
Compartilhe
© 2026 Certificação Lixo Zero | Todos os direitos reservados | Política de Privacidade e Termos de Uso