Lixo Zero: da excelência à transformação

Foto de Rodrigo Sabatini, presidente do Instituto Lixo Zero Brasil. Ele veste paletó azul e camisa branca sem gravata.

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Foto: Carol Jacob – Alesp

Por Rodrigo Sabatini presidente do Instituto Lixo Zero Brasil
rodrigo.sabatini@ilzb.org

As grandes metodologias de gestão raramente permanecem limitadas ao problema que lhes deu origem. A gestão da qualidade nasceu para reduzir defeitos. O Lean foi desenvolvido para aumentar a eficiência dos processos produtivos. O Kaizen estruturou uma forma sistemática de promover melhorias contínuas. O 5S surgiu como um método para organizar o ambiente de trabalho.

Com o tempo, porém, todas elas revelaram um alcance muito maior. Deixaram de ser apenas conjuntos de ferramentas para se tornarem formas de pensar, de trabalhar e de construir culturas organizacionais. A técnica permaneceu importante, mas seu maior legado passou a ser a transformação das pessoas e das instituições.

A trajetória do Lixo Zero parece seguir esse mesmo caminho.

Quando o movimento começou a se estruturar no Brasil, entre 2009 e 2010, o objetivo era bastante claro: alcançar a excelência na gestão de resíduos. Era preciso desenvolver uma metodologia capaz de demonstrar que os resíduos poderiam ser administrados segundo os mais elevados padrões de desempenho, reduzindo drasticamente sua destinação para aterros e incineradores. Nos anos seguintes, esse esforço resultou na construção de uma metodologia própria e, em 2012, na criação da primeira Certificação Lixo Zero do mundo.

Os resultados demonstraram que a excelência era possível. Organizações passaram a atingir índices superiores a 90% de desvio de aterro, estabelecendo uma nova referência para a gestão de resíduos.

Naquele momento, parecia natural acreditar que esse fosse o principal objetivo da metodologia.

A prática, entretanto, começou a revelar algo que os indicadores não conseguiam medir.

As organizações que implantavam o Lixo Zero não apenas melhoravam sua gestão de resíduos. Desenvolviam equipes mais colaborativas, reduziam desperdícios em diferentes áreas, aperfeiçoavam seus processos e fortaleciam uma cultura voltada para a melhoria contínua. Com frequência, tornavam-se também mais preparadas para implantar outras metodologias de excelência e conquistar novas certificações.

Aos poucos, tornou-se evidente que os resíduos não eram apenas o objeto da gestão. Eram um poderoso instrumento de aprendizagem.

Ao aprender a identificar desperdícios materiais, pessoas e organizações desenvolviam uma nova capacidade de reconhecer desperdícios de tempo, recursos, conhecimento, energia e oportunidades. O Lixo Zero deixava de ser compreendido apenas como uma metodologia de excelência na gestão de resíduos para revelar outra dimensão: a formação de uma cultura da excelência.

Mais alguns anos de experiência ampliaram novamente essa compreensão.

As mudanças já não se restringiam ao ambiente organizacional. Elas alcançavam a forma como as pessoas compreendiam o consumo, a responsabilidade, a cooperação e o cuidado com aquilo que pertence a todos. A transformação extrapolava os processos e passava a influenciar relações, instituições e territórios.

Foi nesse momento que se tornou possível compreender uma terceira dimensão do Lixo Zero. Sua maior contribuição não consiste apenas em gerir melhor os resíduos, nem apenas em formar organizações mais eficientes. Sua contribuição mais profunda está em utilizar os resíduos como uma linguagem capaz de formar pessoas e fortalecer uma Cultura do Cuidado dos Bens Comuns.

Essa talvez seja sua principal singularidade em relação às demais metodologias de excelência. Enquanto muitas utilizam os processos para melhorar as organizações, o Lixo Zero utiliza os resíduos para despertar uma consciência sobre a qualidade das relações que estabelecemos com os recursos, com as pessoas e com os bens que compartilhamos.

A excelência continua sendo indispensável. A cultura continua sendo seu caminho. Mas ambas encontram sentido em algo maior: a transformação.

Talvez esse seja o destino das grandes metodologias. Elas nascem para resolver problemas concretos, amadurecem ao formar culturas e alcançam sua plenitude quando ajudam uma sociedade a construir novos modos de viver. O Lixo Zero parece estar iniciando exatamente esse percurso.

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